Ensaio
Entre o absurdo e a fé
Uma leitura existencial do convite de Cristo
À luz de Kierkegaard, o convite de Cristo deixa de ser apenas religioso ou moral e se revela profundamente existencial.
Refletir sobre o cristianismo à luz de Kierkegaard nos obriga a rever profundamente como interpretamos a fé, a moral e a própria existência — uma tarefa urgente em um mundo marcado por dogmatismos e relativismos. Em especial, muda a maneira como podemos compreender o cristianismo institucional contemporâneo, que frequentemente reduz a experiência cristã a códigos morais locais, historicamente situados, tratados como se fossem absolutos e universais. O senso comum cristão tende a operar com base em categorias fixas de certo e errado, pecado e virtude, sem perceber que a moral sofre a passagem do tempo, transforma-se historicamente e reflete valores culturais específicos — um fenômeno que Kierkegaard já denunciava com clareza.
Partindo dessa constatação, é possível sustentar a tese de que a tarefa que Jesus veio realizar não foi, em primeiro lugar, moral. Os evangelhos registram repetidamente embates entre Jesus e os líderes religiosos de sua época — não apenas como críticas aos fariseus e saduceus, mas como questionamentos mais profundos sobre a própria forma de existir diante de Deus. A observância do sábado, as leis de pureza, o contato com mulheres, o lavar das mãos — tudo isso revela não apenas disputas normativas, mas uma tensão mais radical entre exterioridade religiosa e interioridade existencial.
Essa crítica já aparece, inclusive, no Antigo Testamento, quando Deus se recusa a receber sacrifícios e ofertas devido à ausência de justiça, solidariedade e cuidado com o próximo. O problema não era a moral em si, mas sua desconexão com a vida concreta. Assim, não se trata de afirmar que Deus ou Jesus agem de modo imoral, mas de reconhecer que a moral, quando absolutizada, torna-se insuficiente para lidar com a condição humana.
Reduzir Jesus a um reformador moral ou a um mestre intelectual — como se tivesse vindo apenas “corrigir o pensamento” ou ajustar comportamentos morais reféns do tempo — empobrece o alcance de sua mensagem, pois ignora a dimensão existencial de sua vinda. Tanto a moral quanto o esclarecimento intelectual se mostram incapazes de responder plenamente às questões mais profundas: a origem do mal, o desespero humano, as aparentes exceções nas ações divinas e o conflito interior do ser humano consigo mesmo.
À luz de Kierkegaard, a grande questão que assombra a humanidade não é primordialmente moral ou cognitiva, mas existencial. O mal não nasce da ignorância ou da transgressão de normas, mas de uma relação defeituosa do eu consigo mesmo, com o outro e com Deus. O eu, entendido como síntese de corpo e alma, de temporal e eterno, torna-se autoconsciente dessa tensão e, ao tentar fundamentar-se em si mesmo, entra em desespero.
É nesse contexto que emerge o conceito kierkegaardiano de verdade subjetiva. Essa verdade não é arbitrária, nem produto de uma decisão individual leviana. Ela nasce da relação do eu com o eterno, da interioridade, da responsabilidade e do risco. Trata-se de uma verdade absoluta para aquele que a vive, mas não totalizante nem universalizável. A verdade decisiva para mim não precisa — e muitas vezes não pode — ser imposta ao outro.
Essa compreensão oferece uma resposta madura tanto ao relativismo quanto ao moralismo institucional. A verdade subjetiva não significa que “tudo vale”, mas que cada indivíduo é chamado a responder existencialmente por sua relação com o absoluto. Ela exige seriedade, não permissividade. Não há espaço para leviandade, pois o indivíduo permanece absolutamente responsável diante de Deus.
Exemplos simples ilustram isso: Deus pode não querer que alguém consuma determinado alimento por razões existenciais concretas, sem que isso se torne uma norma válida para todos. Da mesma forma, diferentes tradições cristãs compreendem o dia de descanso de maneiras distintas, sem que isso implique um erro absoluto. A questão surge quando verdades existenciais são convertidas em leis universais, ou quando normas históricas são tratadas como expressão plena da vontade divina.
Esse deslocamento da moral para a existência nos ajuda a reinterpretar uma das falas mais conhecidas de Jesus:
“Vinde a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.”
— Mateus 11:28
Tradicionalmente, esse texto é lido apenas como crítica ao peso da lei religiosa. No entanto, pelas lentes do existencialismo kierkegaardiano, o cansaço aqui é mais profundo: é o cansaço de existir como um eu dividido, pressionado a se justificar, a performar e a sustentar-se ontologicamente por si.
Essa leitura encontra uma analogia interessante na análise contemporânea de Byung-Chul Han em A Sociedade do Cansaço. Vivemos uma inversão da figura do senhor: já não somos oprimidos por uma autoridade externa, mas por nós mesmos. Somos, simultaneamente, quem exige e quem é explorado. O sujeito do desempenho acredita ser livre, mas vive sob uma autoexigência infinita. Nesse sentido, somos quem nos aflige e quem nos fere.
O descanso prometido por Cristo não é a ausência de conflito, mas a possibilidade de viver sem carregar sozinho o peso de ser quem somos — um alívio que não elimina a tensão, mas a transforma. Aqui, o salto de fé não representa uma ruptura com a ética, mas uma confiança existencial: crer que o fundamento do “eu” não precisa ser o próprio “eu”. Mesmo que essa cura não se complete plenamente nesta vida, ela pode mitigar os conflitos internos e reorientar a existência.
Contudo, esse horizonte pode ser colocado em diálogo com o conceito de absurdo em Camus. Se o absurdo nasce da busca humana por sentido diante de um universo que não responde, o cristianismo aprofunda o escândalo: o homem busca sentido e é convidado a ouvir uma resposta que não se impõe objetivamente ao mundo, mas se manifesta na interioridade do eu. Essa resposta não dissolve o paradoxo, não elimina o risco nem satisfaz plenamente a razão. Ela permanece loucura para os gregos e blasfêmia para os judeus.
O cristianismo, assim compreendido, não oferece uma solução fácil para o absurdo da existência, mas convida a habitá-lo de outra maneira — não como um vazio a ser preenchido, mas como um convite à responsabilidade e à liberdade. A fé não elimina o peso da vida, mas permite carregá-lo sem que o eu se sustente sozinho. É nesse ponto que o convite de Cristo deixa de ser apenas religioso ou moral e se revela profundamente existencial.